Texto: Miriam Gimenes
Há palavras que nascem da necessidade de sobrevivência e acabam por transformar o mundo. Foi assim com Carolina Maria de Jesus (1914-1977), que fez da escrita uma forma de dar voz à própria história, denunciar desigualdades e registrar a realidade que geralmente fica à margem. Décadas depois, suas palavras continuam encontrando novos leitores e, agora, também ganham corpo, movimento e música em linguagem teatral.
É que no dia 13 de novembro, às 20h, as estudantes, que fazem aula com a Cia. Viajando nas Histórias, apresentam o espetáculo Palco em Festejo - Uma Reverência a Carolina Maria de Jesus, no Teatro São Bento, em Santo André. Com produção de Jô Jorvino e texto e direção de Gabi Cavalcanti, a montagem é resultado de um processo de criação coletiva que envolveu as alunas ao longo do ano, durante as aulas de teatro.
A proposta nasceu de uma pesquisa sobre a vida e a obra da escritora, conduzida por Gabi, que quis aproximar as estudantes de uma referência da literatura brasileira. “Percebo que as crianças têm muitas influências de fora, na música, na literatura e nos filmes, e não há nada de errado nisso. Mas queria trazer uma grande referência daqui para elas”, explica a professora, acrescentando que a ideia nasceu quando ela estava ouvindo uma música de Milton Nascimento.
A construção do espetáculo começou ainda no primeiro semestre, a partir de jogos de cena, exercícios de improvisação, expressão corporal e provocações teatrais. Em vez de receberem um roteiro pronto, as estudantes participaram da criação das cenas e trouxeram suas percepções, ideias e interpretações sobre a escritora e o contexto em que viveu. Tornaram-se, portanto, coautoras da montagem.
O título do espetáculo, explica Gabi, faz uma alusão a Quarto de Despejo, obra mais conhecida da escritora. Mas a história, que não é contada de forma linear, também reúne outros de seus trabalhos como Casa de Alvenaria e Pedaços da Fome, além de trechos de entrevistas e de textos sobre sua vida.
A linguagem teatral combina elementos do teatro épico e da performance. Não há personagens fixos: as estudantes dão vida a diferentes figuras, e alternam momentos de atuação e narração. A música popular brasileira e as brincadeiras tradicionais também fazem parte da montagem, e ajudam a construir um olhar que vai além das dificuldades enfrentadas pela escritora.
“Uma das coisas que nos chamou a atenção foi perceber que Carolina teve pouquíssimo acesso à infância e à brincadeira mas, ao mesmo tempo, insistia para que os filhos tivessem esse direito. Ela era muito sonhadora. Queremos trazer esse lado para o espetáculo, com um olhar de alegria e valorização, porque sua história foi marcada por muita dor, mas não queremos olhar para ela apenas por essa ótica”, conta Gabi.
Exercício de empatia
O processo também foi uma oportunidade de discutir temas como racismo, desigualdade social e machismo. A partir da leitura de textos e de atividades em sala, as estudantes, de diferentes faixas etárias, foram convidadas a refletir sobre as circunstâncias que ocorreram na vida de Carolina e a compreender realidades diferentes das suas.
Para Gabi, o teatro é justamente um espaço de autopercepção e autoconhecimento, que permite exercitar a empatia. “A gente chegou à conclusão de que esse espetáculo foi feito para furar nossas bolhas. É para olhar para além da nossa realidade, para uma realidade mais difícil que a nossa, não com um olhar de pena, mas de empatia. Quando temos pena, nos colocamos em uma posição de superioridade. Quando temos empatia, reconhecemos a dor do outro, e isso nos move a querer transformar aquela realidade de alguma forma”, afirma.
A professora também destaca a relação das estudantes com a leitura como uma das inspirações para o trabalho. Ao longo da pesquisa, percebeu o interesse da turma pela literatura e pela descoberta de que Carolina era, antes de tudo, uma escritora que encontrou na palavra uma maneira de existir e deixar sua marca no mundo. E isso tem tudo a ver com a presença da autora na escola, já que Carolina Maria de Jesus dá nome à biblioteca do Xingu e está estampada em uma das paredes da instituição.
Ao final da experiência, Gabi espera que cada aluno leve consigo mensagens inspiradas na trajetória da escritora, como a da importância de ocupar seu lugar no mundo, a de não desistir do que almeja e a de reconhecer a força da própria voz. Uma das frases de Carolina usada na montagem sintetiza essa intenção: ‘Ninguém vai apagar as palavras que eu escrevi’. “Quero que eles levem isso, que ninguém apague as palavras que escreveram, que deixem marcas por onde passarem e que não deixem de sonhar, como Carolina também não deixou”, finaliza Gabi.
SERVIÇO
Palco em Festejo - Uma Reverência a Carolina Maria de Jesus
Data: 13 de novembro
Horário: 20h
Local: Teatro São Bento (dentro do Instituto Sagrada Família)
Endereço: Rua Manduri, 68 - Jardim Paraíso, Santo André
Produção: Jô Jorvino
Texto e direção: Gabi Cavalcanti
Elenco: Amora Prado, Antonella Reis, Alana Reis, Beatriz Campos, Beatriz Silva, Catarina Teles, Caroline Tambellini, Isadora Gil, Isadora Polidoro, Lara Capelão, Laura Murray, Lorena Akemi, Lorena Garcia, Luiza Jesus, Luiza Madrid, Marina Costa, Manuela Sati, Mariana Zanelli, Valentina Farias e Valentina Goes.
